Você já deve ter passado por mim... aliás, todos já passaram por mim. Vivo aqui, na beirada da rua, desde que me lembro... Acho que nasci aqui. Minha casa é aqui, e também meu trabalho, meu descanso, minha morgue. Meus armários são os bueiros, minha companhia são os pombos que comem meus carrapatos.
Bebo a água que a chuva me dá, como os farelos que as pessoas esquecem de juntar. Meu calor vem dos escapamentos dos ônibus, dos cobertores abandonados pelos meus colegas "de rua", das cobertas das lojas, da luz do Sol.
Isso nunca muda. Eu não posso mudar. Já estou ha tanto tempo por aqui que já não me imagino de outro jeito. Não consigo mudar! Só se alguém me ajudar, pois sozinha não dá. Às vezes, algum órgao do Governo, ou até alguma empresa privada vem me "restaurar", cheios de segundas intenções, só pra não ver-me destroçada, poluindo as portas de suas lojas. Mas não adianta, afinal, minha base é podre.
Multidões passam por mim todos os dias, algumas pessoas até me olham, mas nenhuma se lembra da minha aparência, nem em qual rua eu estava, só se lembram que passaram por um canto que fedia a urina.
Você já deve ter passado por mim, aliás... TODOS já passaram por mim... Prazer! Me chamo calçada.
16/11/2010

Foda!
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